Instituto de Constelaciones Familiares / Brigitte Champetier de Ribes

A ncestrais Indígenas nas Constelações Familiares

Por Márcia Maria Queiroz Linhares

Apresentação

Neste trabalho exponho os fatos que se revelaram nos 14 anos de trabalho semanal nas Constelações Familiares que facilitei, bem como as observações que fiz a partir deles, nos casos em que os ancestrais dos clientes eram indígenas.
Ao longo dos anos e na medida em que aumentava o número de Constelações de clientes emaranhados com ancestrais indígenas, fui percebendo que existiam destinos difíceis comuns a todas elas. Assim, na origem das questões consteladas situavam-se poucas causas (destinos difíceis) que resultavam nas mais variadas consequências (sintomas).
Tudo o que será aqui relatado bem como as conclusões às quais cheguei decorrem tão somente das observações feitas nas Constelações que facilitei. Logo, não decorrem de pesquisa histórica ou literária.  Também, não se trata de estudo definitivo sobre o tema. Apenas compartilho minha experiência para que não se perca e para que possa eventualmente ser útil para consteladores que se interessam pelo tema.  Assim, é possível que outras Constelações mostrem experiências diferentes.

Observações iniciais

Expressões usadas no texto. Uso aqui três expressões que requerem explicação. Destino difícil: evento traumático ocorrido em gerações anteriores ao qual o cliente está vinculado e que dá origem ao sintoma. Sintoma: questão que traz desconforto ao cliente, de qualquer natureza, física ou não. A questão a ser constelada.
Descendentes de indígenas: aqui não me refiro a todos eles.  Refiro-me apenas aos constelandos cujos sintomas tenham origem em um destino difícil ocorrido com estes ancestrais. Dizendo de outra forma: aqueles cujos sintomas mostrem emaranhamentos com ancestrais indígenas.

Como tive acesso aos dados que possibilitaram este estudo.

Sigilo. Desenvolvo minha prática de Constelações em uma cidade de porte médio no interior do Paraná, onde as pessoas e famílias são conhecidas entre si. Era imperioso, portanto, não expor o cliente perante o grupo. Assim, em atendimento individual realizado dias antes da Constelação, o cliente trazia um questionário previamente preenchido, com questões sugeridas por Ursula Franke, em The River Never Looks Back, (hoje já traduzido: O Rio Nunca Olha Para Trás) onde eram identificados os destinos difíceis ocorridos em sua família, que embasavam o genograma que seria feito durante o atendimento.  O sintoma era igualmente revelado apenas ao Terapeuta. Desta forma, quando da realização da Constelação, o grupo, bem como os representantes, não tinha conhecimento quer dos destinos difíceis quer do sintoma constelado.

Genograma. A confecção dos genogramas fazia com que os clientes pesquisassem informações sobre seus ancestrais até onde a memória da família pudesse alcançar. Comecei a me dar conta que o conjunto dos mais de trezentos genogramas acabou apontando para alguns poucos destinos difíceis, os quais davam origem à maioria dos sintomas dos clientes. As Constelações posteriormente confirmavam essa conclusão.

A ascendência nas Constelações

Desenvolvendo meu trabalho no interior do Paraná, estado habitado por imigrantes da Europa, Ásia e África, além dos indígenas que já povoavam a terra, uma informação sempre solicitada no genograma dizia respeito ao país de origem dos ancestrais.  Desses imigrantes, alguns casaram entre si, outros com negros ou com índios. As Constelações retratavam então ancestrais poloneses, ucranianos, italianos, portugueses, espanhóis, africanos e indígenas, entre outros.
Com o tempo, duas situações diferentes foram ficando evidentes: na primeira, nas famílias oriundas da Europa e Ásia, os destinos difíceis que originavam a questão do cliente eram basicamente de cunho pessoal ou familiar. Como exemplo: mães que morreram ao dar à luz, que abandonaram seus filhos, pessoas que assassinaram ou foram assassinadas, que se suicidaram, passaram fome, etc. A esses destinos rotulo genericamente de questões pessoais ou familiares, significando que ocorreram com qualquer pessoa, independentemente da raça.
No segundo caso, revelaram-se situações em que um acontecimento importante, ou destino difícil, que se abateu sobre muitos integrantes da raça, sobrepôs-se às questões pessoais e familiares que porventura aconteceram naquela família. Foi o que ocorreu com os negros e os índios. Para os negros, a mais importante foi a escravidão. Para os indígenas, o núcleo agressor-vítima, a vergonha e a absorção da raça. A esses, denomino destinos difíceis comuns à raça.

Destinos difíceis comuns aos ascendentes Indígenas

Neste trabalho optei por separar em três espécies os destinos difíceis comuns aos indígenas.

Relação dominação-subjugação. Na maior parte das vezes, a ancestral indígena é do sexo feminino, índia “pega a laço”, vale dizer, gerou descendentes e constituiu família com o conquistador branco contra sua vontade. Desta forma, a família do cliente formou-se sobre o binômio dominação-subjugação, ou seja, agressor-vítima.  Então, os descendentes podem estar emaranhados com uma das duas polaridades da primeira geração: ou com o agressor branco ou com a vítima índia. Se o sintoma do cliente tiver relação com a agressividade, poderá estar dizendo: ao branco agressor eu como você; ou aos índios (ou índia) subjugados, em atitude de vingança: eu por você. Se o sintoma tiver relação com a atitude de vítima, com desesperança ou apatia poderá estar dizendo à ancestral indígena: eu como você.  São temas frequentes das Constelações a agressividade de filhos na escola e em casa e a passividade de filhas diante da vida ou de parceiros.

Vergonha-Exclusão. Acontece na primeira geração miscigenada, isto é, na segunda geração, ou seja, no filho/filha do branco e da índia. Este sente vergonha da mãe, significando que não a aceita e consequentemente a exclui.  Exclui a sua mãe, no nível pessoal, deixando de tomar dela a vida. Com isso o fluxo da vida e da energia são grandemente bloqueados. Exclui também a cultura da mãe, já que não poderá, por exemplo, ir de tanga à escola, apresentar os avós aos amigos, fazer rituais ao Deus Trovão. Essas duas exclusões dão-se externamente. Mas têm o seu correspondente interno, pela dificuldade de unir as duas culturas dentro de si. Quer identificar-se com o pai branco, mas sabe que sua outra metade é indígena.  A filha poderá ter orgulho da mãe, mas sente que tem características do pai branco. Daí decorre a insegurança quanto à identidade: Quem sou eu?  Desse forte bloqueio do fluxo da vida resulta para as gerações seguintes uma crônica falta de energia o que os torna muito mais suscetíveis a todo tipo de sintomas.

Absorção da cultura. Quando o índio ingressa na cultura branca, inicia-se um processo de absorção lenta e inexorável das características de sua cultura, feita pelos membros da cultura branca dominante, à luz de seus próprios parâmetros.
Costumo dizer que a cultura indígena é horizontal ao passo que a dos imigrantes é vertical. O que quero dizer com isso? Por exemplo: quanto à postura em relação à natureza, ou seja, à terra, plantas, animais e rios: os índios se colocam no mesmo nível. Convivem, usufruem e desfrutam, não querendo mantê-los sob suas ordens, nem visando a propriedade. O branco considera-se superior, quer dominá-los segundo seus interesses, visa a propriedade e a acumulação. No trabalho, o índio faz o suficiente para o dia e não compete para ser superior. O branco é competitivo, almeja o primeiro lugar, chegar ao topo e acumular. Na vida sexual, predomina a liberdade, de homens e de mulheres, sem culpa. Com o branco o sexo é ligado à culpa e ao preconceito contra a liberdade das mulheres. Para o índio, é grande o compromisso com a tribo, com o clã, muitas vezes predominando sobre o compromisso com a família. Quanto aos brancos, o compromisso que prevalece, ou se espera que prevaleça, é com a família e com uma pessoa: o marido, a esposa.
Na nossa sociedade onde predomina a cultura de imigrantes, um de nós que atue segundo os preceitos da cultura branca é socialmente considerado elogiável, meritório, bom partido, um homem de bem.
Já um de nós que seja emaranhado com ancestrais indígenas e que apresente hoje alguma das características de sua cultura, como por exemplo, que se desinteresse pela conquista de patrimônio, por galgar posições na carreira, em lutar por um cargo importante ou por acumular dinheiro, certamente será motivo de preocupação para os pais, para o cônjuge e filhos. E não será considerado um cidadão bem sucedido na sociedade atual, pautada pelas características da competitividade, acumulação e conquista.  O mesmo se dá em relação às regras de conduta e moral da mulher. Como as uniões com índias pegas à laço ocorreram geralmente no fim do século XIX ou início do século XX, o parâmetro para julgamento da ancestral indígena é o comportamento da mulher branca, geralmente da portuguesa, dessa época.

Vínculos dentro da mesma família

Outra descoberta relevante aconteceu quando o sintoma constelado consistia na discórdia entre irmãos, ou entre pais e filhos. Verifiquei que muito frequentemente o motivo residia no seguinte: um deles estava emaranhado com o agressor e o segundo com a vítima. Ou o primeiro estava emaranhado com o ancestral branco e sua cultura e o segundo com o ancestral indígena e sua cultura. Quer dizer, um deles carrega as características da cultura branca e o outro as características da cultura indígena.

Neste aspecto são muitos os exemplos, que se mostram em sintomas como:

  • irmãos que brigam e agridem-se sem motivo aparente;
  • pais e filhos que mostram antipatia ou agressividade um com o outro;
  • pais e filhos ou irmãos: um deles não se conforma com o desinteresse do outro em conquistar postos na carreira ou vencer na vida, ou em acumular patrimônio ou dinheiro;
  • uma mãe ou filha por demais passiva ou submissa;
  • mulher com medo constante de agressão física ou sexual;
  • familiares que se envergonham do comportamento sexual livre de uma mulher da família;
  • família que se queixa de que um de seus membros tem maior disponibilidade para ajudar os amigos de que a própria família.

Em casos assim e quando a Constelação é pedida pelos pais para seus filhos, quando os pais se dão conta dos emaranhamentos dos filhos e que o comportamento deles não decorre de um possível erro de educação dos pais, o alívio é imediato.

Conclusões finais

No início de muitas das Constelações individuais, observei que uma grande força, a força dos índios, se mantém represada na geração em que o ancestral indígena foi excluído. Esse poder permanece bloqueado no passado, várias gerações atrás, impedido de fluir para o descendente no presente. Então, no início da Constelação, o descendente (constelando) geralmente se apresenta quase sem energia.
No entanto, no decorrer da Constelação, quando o ancestral índio é aceito e incluído e consequentemente o fluxo da vida é restabelecido e liberado, algumas vezes algo poderoso acontece: a vida que passa a fluir para os descendentes vem com mais força. Como se junto viesse a força visceral dos elementos: da terra, do ar, da água, do fogo, do trovão e do vento. E para o constelando, junto com esse poder voltam a fluir a altivez, a dignidade e a vida plena.
Penso que o mesmo pode ser válido para o coletivo. Tendo em mente que um sistema só poderá evoluir quando todos os seus componentes estiverem presentes e considerando também que muitos de nós, brasileiros, temos algum ancestral indígena, essa força poderosa pode estar bloqueada para uma parcela significativa da população brasileira.
Assim, penso que o verdadeiro poder do Brasil, como país, só será liberado quando os indígenas, primeiros habitantes da terra sobre a qual se construiu a nação, forem reconhecidos e honrados. E quando tiverem um lugar de respeito no coração de cada imigrante que aqui veio para fazer a vida, ganhar dinheiro e criar seus filhos. Porque o desenvolvimento material trazido pelos imigrantes, ainda que inexorável e consequência natural da fase histórica em que ocorreu, foi, sem dúvida, construído sobre as perdas e o desrespeito de que os indígenas foram vítimas.

 

Marcia Linhares
oimarcia@uol.com.br.
Consteladora no Brasil desde 2003. Aluna de Brigitte Champetier de Ribes desde 2014.